Foto: CBTM
Existe um momento na carreira de todo grande atleta em que competir deixa de ser o único propósito. A obsessão pelo resultado começa a dividir espaço com algo mais amplo e permanente: a vontade de contribuir, formar e deixar marcas que ultrapassem as próprias conquistas. É nesse ponto que a trajetória de Kelly se conecta ao tênis de mesa paralímpico brasileiro.
Ainda em atividade, a paratleta da classe 7 ampliou o próprio olhar sobre o esporte. Para além do desempenho individual, passou a enxergá-lo também como espaço de formação e troca - um caminho natural para quem sempre demonstrou interesse pelo jogo em todas as suas camadas.
"Eu sempre fui muito interessada no jogo em si. Mesmo quando era mais jovem, eu passava muito tempo no ginásio observando outros atletas. Eu analisava como jogavam em diferentes momentos do jogo, como lidavam com pressão, quais decisões tomavam", comentou.
"Sempre me interessei por detalhes técnicos, estilos de jogo, uso de materiais, diferenças entre jogadores destros e canhotos. Eu estava sempre observando, aprendendo. Isso nem sempre é o ideal como atleta, porque você precisa descansar, mas eu não conseguia sair do ambiente. Acho que isso mostra o quanto eu amo o jogo", completou.
No alto rendimento, evoluir vai muito além da execução precisa dos movimentos. Exige leitura de jogo, interpretação de cenários, tomada de decisão sob pressão e a capacidade de transformar cada detalhe em conhecimento acumulado. Essa compreensão mais ampla do esporte a levou a refletir sobre o próprio papel dentro dele - e sobre o que poderia entregar além das vitórias.
"Quando eu comecei a conversar com os treinadores e com toda a equipe, eles me perguntaram quais eram meus planos para o futuro. Como atleta, eu tenho muita experiência, mas estou ficando mais velha e comecei a sentir que não se trata mais só de mim. Também é hora de retribuir e usar minha experiência para ajudar outros atletas. Foi assim que tudo começou e estou muito grata à CBTM por essa oportunidade."
Foi com essa bagagem - técnica, analítica e humana - que ela iniciou o trabalho junto ao grupo brasileiro.
Que os brasileiros são enérgicos, calorosos e fiéis torcedores não é novidade. Mas, ao se deparar com a nova geração, o primeiro impacto não veio apenas da parte técnica, e sim dessa combinação de intensidade e envolvimento com o jogo. Para Kelly, trata-se de um traço que não se ensina e que pode ser determinante no desenvolvimento dos atletas.
"O que mais me chamou atenção nos atletas brasileiros foi a motivação e o espírito de luta. Isso aparece até nos treinos. Eles comemoram pontos, incentivam uns aos outros, mostram energia o tempo todo. Isso não se ensina, você tem ou não tem. E isso é algo que realmente diferencia o Brasil de outros países", enfatizou.
A partir dessa base, o trabalho passa a ser direcionado aos detalhes. No paradesporto, cada ajuste técnico precisa considerar características individuais, equilíbrio, movimentação e estilo próprio de jogo. O desenvolvimento não é padronizado, e sim construído caso a caso. Esse olhar individualizado integra um planejamento mais amplo da CBTM, que busca impulsionar a evolução do grupo de forma estruturada e contínua, já com foco nos próximos ciclos paralímpicos, especialmente em Brisbane 2032.
"O objetivo é entender como cada um joga hoje e, junto com a comissão técnica, identificar onde podem evoluir. Às vezes é o saque, a construção do ponto, o uso do forehand ou backhand, o posicionamento na mesa. São ajustes muito individuais. Além disso, eles ainda são jovens, então há muito espaço para desenvolver fundamentos básicos como recepção, ataque, bloqueio e consistência."
Se a técnica orienta o caminho, a mentalidade sustenta o percurso. Em um esporte de decisões rápidas e margens mínimas, a força emocional pode ser fundamental ao longo de todo um ciclo.
"Algo que eu quero muito transmitir é a mentalidade de nunca desistir. Ao longo da minha carreira, virei muitos jogos simplesmente por continuar lutando e mantendo uma atitude positiva. O tênis de mesa é um esporte extremamente mental, e isso faz toda a diferença."
Patrocínio
As Loterias Caixa e a Caixa são as patrocinadoras oficiais do tênis de mesa paralímpico brasileiro.